sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Tendo Tudo Sem Ser Dono de Nada

“E era um o coração e a alma da multidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns”

Atos 4.32

“Mamãe... Eu quero”, diz a criança com poucos anos de idade, que ainda pronuncia mal as palavras. Desde pequenos somos hipnotizados para vivermos em um sistema de trocas e posses. A idéia de posse e de barganha está na cultura do homem. Nossos filhos são ensinados assim. “Se você não fizer bagunça, papai leva você pra tomar sorvete”. Assim, aprendemos que os relacionamentos se baseiam na troca, no escambo.

É assim que os professores se relacionam com os seus alunos; é assim que os pais se relacionam com os filhos; é assim que os casais se relacionam entre si; é assim que os patrões se relacionam com seus funcionários. “O que é meu, é meu. Não pode ser dado de graça”. Eis o problema que temos para aceitar a graça divina.

Deus, em sua soberania, escolhe dar o Seu Filho, simplesmente porque ama, e ama porque ama, e ponto final. E mais: Ele ainda pede que esta mesma atitude seja repetida em nós, em nossos relacionamentos. Ele pede que você dê ao que te pede, e não te desvies de quem te pede emprestado. Ele pede que você perdoe aqueles que te ofenderam, assim como você foi perdoado por Ele. E isso só é possível quando se considera tudo o que é seu como sendo dos outros.

O benefício de viver assim é simples: A sua irritabilidade diminuirá até desaparecer. Se considero a minha paciência como sendo do homem mais chato da empresa, não serei irritado por ele. Se considero o meu tempo como sendo da minha família, não ficarei chateado se as minhas programações forem frustradas. Ao crescer nesta consciência, estaremos crescendo em graça. Tudo é de todos. Nada é meu.

Quando vivo numa comunidade que tem esta consciência, terei sempre tudo sem ser dono de nada. O que eu tenho é só o que os outros me dão e o que os outros têm é só o que lhes dou. O sentimento de possessão é destruído à medida que a minha consciência cresce nesta direção. Passe pelas parábolas e por Atos dos Apóstolos. Você não verá nada além de pessoas se fazendo dependentes de outras sendo exaltadas e pessoas que se fazem independentes sendo condenadas.


Vinícius Santos Albuquerque

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Rebele-se


Um grito ecoa no deserto e o clamor é por arrependimento, a todos, em todas as esferas sociais, o grito é para que endireitem suas veredas.

Aos religiosos, que se arrependam de sua prepotência, da arrogância de quem bate no peito pensando ser alguma coisa, de quem se gloria na Lei e nela descansa, que com a boca profere arrependimento, mas no coração não demonstra qualquer desejo por mudança, pois decorou o “script” da religião de tal modo a impedir que os verdadeiros preceitos da mesma penetrem no mais profundo de sua alma.

Ao cidadão comum, que se arrependa de ter uma consciência cauterizada [pelas ofertas da sociedade] a ponto de impedir que a misericórdia encha teu ser. Este critica o governo, mas aceita os benefícios que a miséria do outro pode lhe conceder, pensa que só porque PODE ter, ele DEVE ter, busca o seu direito e ignora o dos outros.

Ao que tem domínio sobre o outro, que se arrependa por usar tal domínio para oprimir, para explorar, para submeter, para subornar. Este usa o outro como escada e tapete, ele bate no mais fraco, explora o menor.

Ao que pensa que pode sobrepor-se a valores morais por possuir valores materiais, que disto se arrependa. Este pensa que pode ter tudo, inclusive a mulher de seu irmão, não há leis para ele, não há barreiras para seu querer.

João Batista gritou no deserto contra a religião prepotente, contra a apatia social, contra a opressão do mais forte e contra a banalização da moralidade. Ele mostrou que todos os setores da sociedade necessitavam de uma reforma, a casa toda deveria ser arrumada, desde os vales da miséria, que deveriam ser aterrados com compaixão e misericórdia, aos montes da altivez, que deveriam ser nivelados com humildade e abnegação. Desde o simples trabalhador ao governador de Jerusalém, passando pelos líderes religiosos, soldados e cobradores de impostos, todos deveriam arrepender-se do modo pelo qual procediam.

João propôs uma revolução, em cada setor da sociedade, uma rebelião contra o “império humano” a fim da que, em caminho plano, viesse o Reino dos Céus. Este é o anúncio da chegada do Messias. Jesus veio para consolidar o Reino de Deus na Terra. Ele é a consumação do Reino, Ele é a plenitude do Reino, de modo que qualquer um que, ouvindo a pregação de João, iniciasse uma revolução em seus próprios valores, tornar-se-ia apto a ouvir de bom grado as palavras do Mestre, e assim receberia o Evangelho.

Essa rebeldia contra os sofismas sociais é necessária ainda nos dias de hoje, só é possível aprofundar-se na compreensão do Evangelho a partir dela. É necessário rebelar-se contra o sentimento vanglorioso que provém da religião, contra o descanso nos dogmas, contra a pretensiosa auto-justificação. É necessário rebelar-se contra o sentimento de “eu não tenho nada a ver com isso”, que se instala em nós, e nos torna sem compaixão ou misericórdia, contra as mensagens capitalistas que dominam nossas mentes, forçando-nos a crer que necessitamos mais do que realmente necessitamos, e que nos fazem gastarmos nosso tempo em shoppings, entre risos ilusórios, enquanto outros choram lágrimas reais, em seus casebres mal feitos. É necessário nos rebelarmos contra o sentimento animal que nos diz que podemos oprimir o mais fraco, seja ele um amigo, parente, cliente ou funcionário. É necessário nos rebelarmos contra o desejo pelo que é do outro, contra a vontade de pularmos o cercado de nosso irmão para pegarmos o que estiver por lá, e assim compreendermos que cada um tem seu espaço e que devemos respeitá-lo.

Rebele-se, não contra o sistema eclesiástico, não contra o governo, não contra os policiais corruptos, não contra os que derrubam a moral da sociedade, mas contra si mesmo, contra o que há desses grupos dentro de você, pois afirmo que todos somos hipócritas, sem misericórdia, opressores e cobiçosos tanto quanto eles, por isso todos devemos nos arrepender.

Por Gustavo Marchetti, mais um dos que tem seus valores invertidos pelo Evangelho.