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domingo, 25 de setembro de 2011

Somos quem podemos ser

Para Pedro, ser discípulo era ir até a morte, era caminhar bem colado em Seu Mestre, era encher-se da poeira de Seus pés. Pedro buscava ser tal discípulo, era essa sua utopia, ele queria ir até às últimas consequências, queria ser reconhecido como o mais apaixonado dentre os seguidores do Mestre, e estava disposto a ser o melhor deles.
Tendo projetado sua imagem de díscipulo perfeito e caminhando após ela, Pedro seguia a si mesmo, passando longe de Seu real Mestre. Obstinado por ser o melhor discípulo, deixou de simplesmente ser discípulo de Jesus. Seguindo sua própria imagem de perfeição, fez promessas maiores que si mesmo e mais tarde chegara a arrancar a orelha de um soldado romano, apenas pela preservação de sua honra.
De fato, o Reino do Céus é um convite ao sonho, um chamado à utopia, embora seja muito mais que uma simples utopia pois o Reino é real, e utopias são somente projeções inalcançáveis. Todavia, esse Reino cresce em nós, multiplicasse, dá frutos em seu tempo, passa por várias estações, enfrenta tempestades e tempos de seca, e em todos os tempos reage de modo específico e singular.
Sonhar ser como o Mestre, seguí-Lo até o fim, não é errado, é, antes, o objetivo de todo discípulo. Porém, ser como Jesus é um Caminho, não uma obra mágica, instantânea. Como o próprio Mestre disse acerca da morte de Pedro, ele fora manietado, levado preso para onde não queria, tornou-se um mártir. Apesar de não ter nascido mártir, ele aprendeu a caminhar para o martírio. Nesse caminho, ele encarou a realidade, encontrou-se, foi amado e continuou a caminhar nesse Amor.
É fato que nossas projeções, quando cruzam-se com os conflitos, com a realidade, são desmascaradas. Nossos anseios são tidos como irrealizáveis, inalcançáveis, distantes demais de nós mesmos. O Mestre sabe disso, sabe tanto que diz que o "bom terreno" para o florescimento do Reino de Deus, é o coração que não se alegra somente com projeções, mas encara a realidade da provação com firmeza, percebe suas fraquezas e não se desespera, suporta as perseguições sem desanimar.
Diante disso, o Mestre disse a Pedro que este O negaria. Jesus sabia que quando a vida apertasse, Pedro afrouxaria, quando a realidade desnudasse sua alma, revelando suas fraquezas, Ele se angustiaria e correria o risco de desistir da caminhada, por isso lhe avisou com antecedência tal fato.
Pensemos a quantas projeções, anseios, ambições por "ser" nós estamos submetidos. E como tais projeções, ao ruírem diante da realidade de nosso ser, não nos fazem sucumbir em angústia e cair em choro amargo. Ora, vejamos os pais que se pegam em lágrimas diante de seu fracasso, os filhos que choram diante de sua própria rebeldia, as esposas angustiadas ao verem que o amor in-"condicional" prometido no período de namoro não suporta a "condição" da traição, os religiosos frustrados diante de sua incapacidade diante da Lei. São todos estes, caminhantes na existência, em busca de ser quem não são. O amor é sua utopia, mas sua realidade enferma lhes revelam a pequena dimensão de seu próprio ser.
Estes, ou agridem-se, ou se mascaram e fogem da realidade que há em si mesmos.
Somos cheios de imagens acerca de quem deveríamos ser, caminhamos após elas, buscamo-las, mas não as alcançamos.
Uma conversa sincera com o Cristo ressurreto é o bastante para realinhar nosso espírito.
Pedro, o fracassado discípulo, é chamado para essa conversa, na beira da praia.
"Sim, meu amor por ti é maior que o dos outros".
"Sim, eu te amo, Senhor".
"[Entristecido] Tu sabes de tudo, sabes do meu amor por ti".
Pequeno amor, mas era o que Pedro tinha. A medida necessária exigida pelo Mestre naquele momento. O Mestre nunca exigiu mais do que Pedro tinha a oferecer, a utopia petrina sim.
Para Ele, bastava que Pedro fosse Pedro.
Para Pedro, ele tinha que ser Jesus. Mas, só Jesus é Jesus desde sempre. Eu e você temos que ser aos poucos, e assim "ir sendo", crescendo, pedagogicamente guiados pelo Espírito e provados pela vida. Assim, Pedro "vai sendo" Pedro até chegar a ser como Jesus.
Nós somos apenas quem podemos ser, e assim "vamos sendo" apenas quem somos, até sermos quem Ele é, e Ele será tudo em todos nós. Aleluia. Isso é o que Jesus diz para Pedro, para mim e para você: "Segue-me tu". É como dizer: "Vem sendo você mesmo após mim". Sem angustiar-se com seus fracassos diante de suas utopias, lançando toda palha no fogo, para simplesmente seguir caminhando com Ele.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Deus é amor apesar de nossa dor

Saibamos que o Amor-de-Deus-em-Cristo-É, e se manifesta independente do sofrimento ou da ausência do mesmo. Na realidade, não há dor que não seja manifestação desse Amor [que não pode ser definido pelas circunstâncias, pois esse "Amor É" apesar das circunstâncias], pois cada doença e cada cura são apenas gotas de água diante do oceano do Amor divino, são parte de um todo que só pode ser apreciado se visto por inteiro, do contrário o que se faz é murmurar dizendo que uma gota não nos é suficiente para satisfazer a sede.

Tendo isso em mente, o desfrute do Amor de Deus pode se apresentar na tristeza e na alegria, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, derrubando assim a significação das “bênçãos-que-haverão-de-vir” tão desejadas e esperadas atualmente. A esperança de muitos hoje é para aqui e agora, porém ainda não, esperando, talvez, a vontade e o tempo de Deus. Assim, desprezando o Amor, a Bondade e a Disciplina de Deus, fitam seus olhos nas bençãos que desejam sempre.

O que nos resta é parar de reduzir a vida a um momento (por mais longo que seja tal momento ainda será somente a parte de um breve "sopro"), e não encaixarmos Deus nesse único momento a fim de tentarmos compreender quais as Suas razões para nossa dor.

Ora, saibamos que Deus é bom, e que tudo coopera para o bem dos que assim crêem, de modo que linhas escuras podem tecer a vida destes, que ainda assim dirão: Ele me ama. Pois o amor de Deus se prova na Cruz e na experiência de encarar a vida sob essa perspectiva, não na ausência de dor e conflitos. Tenhamos, pois, bom ânimo. Ele venceu o mundo.

Deus te ama, Ele te amou sempre e sempre, e para sempre...

Em toda a dor, que a Graça te baste.


Por Gustavo Marchetti, no Amor dEle.

terça-feira, 22 de março de 2011

Sem dívidas ou devedores


“Então, Pedro, aproximando-se, lhe perguntou: Senhor, até quantas vezes meu irmão pecará contra mim, que eu lhe perdoe? Até sete vezes? Respondeu-lhe Jesus: Não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete. Por isso, o reino dos céus é semelhante a um rei que resolveu ajustar contas com os seus servos. E, passando a fazê-lo, trouxeram-lhe um que lhe devia dez mil talentos. Não tendo ele, porém, com que pagar, ordenou o senhor que fosse vendido ele, a mulher, os filhos e tudo quanto possuía e que a dívida fosse paga. Então, o servo, prostrando-se reverente, rogou: Senhor, sê paciente comigo, e tudo te pagarei. E o senhor daquele servo, compadecendo-se, mandou-o embora e perdoou-lhe a dívida. Saindo, porém, aquele servo, encontrou um dos seus conservos que lhe devia cem denários; e, agarrando-o, o sufocava, dizendo: Paga-me o que me deves. Então, o seu conservo, caindo-lhe aos pés, lhe implorava: Sê paciente comigo, e te pagarei. Ele, entretanto, não quis, antes, indo-se, o lançou na prisão, até que saldasse a dívida. Vendo os seus companheiros o que se havia passado, entristeceram-se muito e foram relatar ao seu senhor tudo o que acontecera. Então, o seu senhor, chamando-o, lhe disse: Servo malvado, perdoei-te aquela dívida toda porque me suplicaste; não devias tu, igualmente, compadecer-te do teu conservo, como também eu me compadeci de ti? E, indignando-se, o seu senhor o entregou aos verdugos, até que lhe pagasse toda a dívida. Assim também meu Pai celeste vos fará, se do íntimo não perdoardes cada um a seu irmão.” (Mateus 18: 21-35)

E diante de tão grande compaixão ainda há alguém de quem eu possa não me compadecer?

Se a dívida impagável é revogada pela misericórdia absoluta, porque ainda exigirei que outros me paguem o que devem? Se com Ele está tudo certo, logo com todos também está. Se de cima vem perdão, aqui em baixo só pode haver também. Qualquer um que, verdadeiramente, esteja ciente de que o escrito de dívida foi rasgado diante de Deus, rasga todas as notas promissórias de seus irmãos e não somente deles, mas também de seus inimigos.

“Ninguém me deve mais nada”, é o que pensa aquele que sente o fardo pesado da culpa sair de sobre seus ombros. Não há quem me deva...

tolerância ou compreensão no dia em que eu estiver cansado,

atenção e apoio quando me encontrar enfermo,

retribuir meus bons atos,

fidelidade por eu ser fiel,

respeito por eu ser respeitoso,

amor por eu amar.

Daí em diante inicia-se uma nova caminhada, para fora de si mesmo, para fora de seus desejos e exigências. O espírito dilata, o coração se enche de perdão, deixa-se a pequenez do ser e torna-se grande, abandona-se a mesquinhez de quem quer que tudo seja como quer que seja, e passa a aceitar as diferenças, a compreender as oposições. Se aprende a ficar com o prejuízo, a aceitar a calúnia, a dar a outra face, abandona-se a vingança, o ódio, a amargura e o rancor. Deixa-se de lado a justiça própria, aliás, nenhuma outra justiça parece lógica senão a que diz que para cada réu há absolvição.

E se essa é a perspectiva que se tem sobre o que é justo daqui pra frente, então já não há mais juízo a ser estabelecido acerca de ninguém, não há medida com que se deva julgar.

O escrito de dívida que o mundo inteiro tinha contigo, agora está rasgado. E quando foi isso? Na cruz, e não somente ali, na plenitude dos tempos, mas antes dos tempos existirem. É diante desse perdão que me perdoou e te perdoou, antes de eu e você existirmos, que devemos perdoar o mundo inteiro, antes que ele peque contra nós. Desde a mãe desatenciosa ao pai omisso, do irmão opressor ao primo dedo-duro, da atendente mal-humorada ao patrão arrogante, todos estão livres para nos ofender como quiserem.

O contrário disso é caminhar carregando culpas e culpados nas costas, e com existência pesada enfadar a alma, encontrando devedores na rua o tempo todo, agarrando-lhes pelo colarinho, sufocando-os com ódio, encarcerando-os em seu coração, oprimindo-os com suas palavras. É julgar tudo e todos, viver a frustração de quem quer ordenar cada acontecimento do universo para alcançar paz. É viver com coração ingrato, incapaz de desfrutar da maravilha de existir para a glória de Deus.

Por Gustavo Marchetti, mais um dos que, antes perdoados, agora, perdoam.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

A consciência de um pecador arrependido

Não tenho dúvidas de que Judas não tornaria a trair Jesus, de que seria homem íntegro e reto em sua escolha, mas ainda assim, penso que ele não estaria inundado pelo real arrependimento, pelo "arrependimento salvífico" - entre aspas por não ser o arrependimento a essência da salvação, mas a resposta humana diante da justiça divina revelada em Cristo -, pelo arrependimento produzido pelo Espírito, pelo real convencimento de seu pecado. Pedro, todavia, mesmo após o perdão de Jesus, poderia ter errado de novo, mas ainda assim estava preenchido pelo real arrependimento. Jesus disse que o Espírito nos convenceria do pecado, do pecado por não crer Nele (João 16: 8-9), de modo que ser convencido do pecado pelo Espírito Santo, não tem nada a ver com aquela menina que se pune, ao ter o desejo de usar um batom vermelho, por ter uma consciência religiosa baseada na doutrina de sua igreja acerca dos usos e costumes, nem com a decisão daquele alcoólatra em parar de castigar sua própria alma com seus vícios, antes, tem total relação com a consciência de que só permanece em pecado aquele que não crê em Jesus, pois aquele que crê será salvo e já não mais perecerá, está justificado, sabe-se pecador, angustia-se com suas falhas, mas descansa tranqüilamente nos braços do Pai, pois sabe que chegará o dia em que se livrará do corpo dessa morte, chora por seus pecados, mas não se deprime até a morte, pois sabe em quem confia, e a Este diz: “Compadece-Te de mim, ó Deus, segundo a TUA benignidade; e, segundo a multidão de SUAS misericórdias, apaga as minhas transgressões (Salmo 51:1)”.

Esta é a consciência espiritual do pecado, é a consciência do Evangelho, que só se instala naquele que é convencido por Deus, que é transformado pelo Espírito, e por isso, abandona a pretensiosa esperança de limpar, por si mesmo, a própria mente, que larga seus fardos, que não se acusa, que não se oprime, que não se enfada, que enfim permanece livre para caminhar no Caminho que é Jesus. De outro lado, temos a consciência natural acerca do que é pecado. Esta é formada pela sociedade, pelas experiências vividas, pelas reflexões filosóficas e teológicas e pela caminhada espiritual, seja ela qual for, ou seja, por tudo aquilo que cria, transforma e desenvolve a moral de um homem. É um dom comum de Deus, é a capacidade de analisar, compreender, julgar, reter ou excluir, absorver e viver a partir do que for absorvido, mas que nunca é bem utilizada pelo homem caído, dela flui o legalismo e a depressiva, acusatória, aprisionadora e angustiante consciência. É a consciência do karma, da penitência, da autoflagelação, que espera outra chance onde poderá fazer diferente, corrigir suas falhas, acertar seus erros, pagar seus pecados com sofrimento próprio.

Judas é o exemplo de um homem escravo de sua consciência natural, aprisionado por sua culpa, que arrependido e disposto a voltar atrás, tentou limpar-se comprando de volta o sangue do homem que vendera, e, não conseguindo, deu sua própria vida para tentar salvar sua alma, achou-se digno de ser sacrifício e assim fez-se diante de Deus, tentou mostrar que estava angustiado até a morte, e foi até a morte para tentar convencer-se e convencer a Deus de seu arrependimento, enquanto do outro lado temos Pedro, um homem considerando-se indigno, que desiste de si e desanimado volta para suas redes, que se alegra ao ouvir que tem uma segunda chance, que desfruta do gozo do perdão, e que segue o Caminho contrário a seu caminho anterior sem a pretensão de ser perfeito para ser aceito, sem achar que pode oferecer sacrifício que sirva para justificar-se, sem apostar em si, sem promessas maiores que ele mesmo (“pelo Senhor vou até a morte”), mas consciente de quem é, caminha sobre e sob o perdão do Mestre.

Um é homem natural, o outro, homem espiritual. Um é escravo de sua culpa, o outro, livre para sempre, justificado. Um, vê-se merecedor de uma segunda chance, o outro, acha que merece o juízo. Um, cheio de justiça própria e arrogância, tenta pagar sua dívida, o outro, é tão pobre de espírito que tem como única esperança de justificação o perdão dAquele que é misericordioso o suficiente para o pode perdoar. Dito isto, tenho por certo que o arrependimento espiritual ocorre quando o homem desiste totalmente de ser quem é, e se apega Àquele que É. Quando abre mão de si e se junta ao Outro, que é Jesus, quando se esconde Nele, quando não mais promete que vai mudar e apenas passa a sofrer uma mudança constante de mente, pois esta está inundada com a consciência de que só pode ser, crescer, livrar-se e lavar-se em Cristo.

Por Gustavo Marchetti, mais um dos que descansam Nele.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Graça - a cura da alma




“Entrando Jesus num barco, passou para o outro lado e foi para a sua própria cidade. E eis que lhe trouxeram um paralítico deitado num leito. Vendo-lhes a fé, Jesus disse ao paralítico: Tem bom ânimo, filho; estão perdoados os teus pecados. Mas alguns escribas diziam consigo: Este blasfema. Jesus, porém, conhecendo-lhes os pensamentos, disse: Por que cogitais o mal no vosso coração? Pois que é mais fácil? Dizer: Estão perdoados os teus pecados, ou dizer: Levanta-te e anda? Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados – disse, então, ao paralítico: Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa. E, levantando-se, partiu para sua casa. Vendo isto, as multidões, maravilhados, glorificaram a Deus, que dera tal autoridade (gr. exousia) aos homens.Mateus 9: 1-8

Sem qualquer ritual, sem qualquer mandinga, sem meditação reforçada, sem reencarnação, sem sacrifícios de homens, só pelo sacrifício de um, do próprio Deus. Essa é a justiça da graça. No que concerne ao homem está apenas o ato de recebê-la, de mãos vazias e alma cheia, sem oferecer nada em troca, sem carregar na alma a angústia e o peso da autojustificação, sem a agonia da luta contra a Lei, apenas o alívio gracioso que vêm dos céus e que se estabelece no coração do indivíduo tornando-o um “ser”. Quem entende, sabe que curar um paralítico não se compara a isso, quem entende que a alma carece de graça não julga ser mais difícil dizer ao paralítico que se “levante e ande” do que “seus pecados estão perdoados”. Aqueles, porém, que pensam de si além do que convém, que julgam-se capazes de pagar com seu próprio esforço os seus pecados, que pensam que seus rituais são suficientes para dizerem que os pecados se foram, esses sempre julgaram serem maiores os milagres do que o perdão gracioso, e isso porque desconhecem tal perdão pois para eles perdão é sempre fruto de seus sacrifícios, de seus esforços.

Esses são os que não aceitam os publicanos e pecadores na mesa com Jesus, são os que exigem que seja levado o animal a ser sacrificado no templo, são os que pensam que a menos que suas mãos tenham derramado o sangue da oferta pelos pecados do outro ele não está perdoado, que a menos que possam dizer: “pela minha oração, você está perdoado”, o perdão não aconteceu. Esses julgam ser grande coisa um paralítico andar, isso porque para eles é impossível fazer que isso aconteça, mas acham que um pecador ser perdoado de seus pecados é simples, afinal, basta que ele siga a cartilha deles e alcançará seu perdão.

Jesus mostrou que o perdão é maior que a cura, isso porque nenhuma dor física se compara à dor que dói na alma. Se a alma está sarada, perdoada, livre de culpa e angústia, então o corpo, ainda que debilitado ou deficiente, estará bem, porém se o contrário ocorre então tudo estará mal, pois de nada adianta ter pernas que andam e uma alma ancorada na angústia; de nada adianta ter braços sadios se eles servirão de instrumentos para que se mate alguém; de nada adianta poder falar se da boca somente fluir torpeza, ofensa, fofoca e calúnia; de nada adianta ter olhos que vêem se não são capazes de contemplar a beleza do mundo; pois braços que batem, ainda que perfeitos, são deficientes; línguas que urdem enganos, ainda que pronunciando tagarelamente muitas palavras, não emitem som algum; olhos que só contemplam a desgraça e a destruição, ainda que não necessitem de óculos, não vêem.

A ofensa feita ao Pai foi perdoada no Filho, o que saiu de Sua boca aos enfermos da humanidade foi simplesmente: “Os seus pecados estão perdoados”. E aos que recebem tal perdão Ele diz que o “que ligarem na terra, será ligado nos céus”, e também que “se de alguns perdoarem os pecados, ser-lhe-ão perdoados, se lhos retiverem, serão retidos”. Assim como o Filho perdoou a ofensa, tendo sido enviado pelo Pai, Ele também enviou seus irmãos, como procuradores dos interesses de Deus (gr. exousia), a fim de que perdoassem a ofensa dos homens a Deus (seus pecados) como se tivessem sido feitas à eles mesmos.

É-nos dado então o poder de reter ou libertar a qualquer que caminhe pela terra, é-nos dado o poder de perdoar qualquer assassino, prostituta, ladrão, viciado, pedófilo, e qualquer outro pecador de alma angustiada, que caminha por essa terra como errante, sem rumo e sofrendo o peso de sua própria existência; sim, é-nos dado poder de perdoar a esses “Cains”, mentirosos, invejosos e homicidas. O poder de perdoar qualquer ofensa feita a Deus, de perdoar qualquer ofensa feita a qualquer outro desses indivíduos criados à Sua imagem e semelhança, é-nos dado esse poder, o poder de libertar almas cativas, oprimidas, angustiadas, que caminham carregando fardos pesados que as cansam, o poder de levar alívio para esses, de dar-lhes descanso, esse é o poder que maravilha a qualquer um que o compreende, a autoridade de perdoar os pecados.

Esse é o perdão sem sacerdotes, pois a pedra que serve de base para esse perdão é justamente a afirmação de que em Cristo estão todos perdoados, por isso é concedido sem padre, pastor, bispo, diácono, rabino, sem benção de espíritos que já partiram dessa para outra, sem tomar “passe” de pai-de-santo, é simplesmente sob o sacerdócio de um, do Cristo. Está consumado na cruz, e não necessita de acréscimo, assim resta-nos apenas a satisfação e a honra de propagarmos essa mensagem, de ver gente respirando aliviada com esse perdão, de ver a alegria surgindo no rosto antes entristecido, de ver abraços reconciliatórios ardentes e totalmente desprendidos de mágoa, e agradecidos glorificarmos a Deus pelo ministério que nos concedeu, o ministério da reconciliação, dos homens com Ele, e também dos homens com outros homens e dos homens consigo mesmos, pois é isso que acontece quando o homem se encontra em paz com Deus.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A Lei a meu serviço


“Porque o Filho do Homem é Senhor até do sábado. (Mt. 12: 8)”

Os fariseus, com suas tradições orais tornaram o sábado o dia dos sacrifícios, no sábado eram feitas circuncisões e holocaustos, havia 39 tipos de leis somente sobre o sábado. O que os discípulos de Jesus fizeram ao colher espigas, não era contrário à Lei que foi entregue no monte Sinai, mas era contrário às leis farisaicas, contrário ao julgo pesado e religioso que fora imposto pelos fariseus. O que esses religiosos fizeram foi tornar a Lei que é santa, perfeita e pura, capaz de refrigerar a alma do homem, em algo pesado, em um fardo difícil de se carregar, enquanto isso o caminho que Jesus traça é o de satisfação e prazer nessa Lei, não o de obrigação e terror.

Quando vemos a Lei como forma de salvação, tornamo-nos escravos dela, sendo subjugados pela mesma. O estado do que se encontra nessa condição é de um terror constante, como se estivesse sob a mira do revólver de um seqüestrador, e apenas um passo em falso, ou uma palavra errada poderá significar para este a morte. O pavor da maldição impede esse indivíduo de cumprir a Lei.

Jesus disse que Ele é o Senhor até do sábado, Ele não está afirmando que o sábado é o seu senhor, mas Ele é quem o assenhoreia, pois o sábado foi feito para o homem, não o homem para o sábado (Mc. 2: 27). O que Jesus deixa claro aqui é que a Lei não deve escravizar o homem, mas deve servir-lhe, outorgando-lhe satisfação, refrigério, prazer. Os fariseus entendiam a salvação por intermédio da Lei e por isso tornaram-se escravos dela, viviam sob o jugo da escravidão, sob a opressão da Lei, sob a pena de punição se por acaso se desviassem para a direita ou para a esquerda. Tal estado de terror conduziu os fariseus a olharem para a maldição da Lei não para a benção. Quando se percebe a Lei desse modo, o que resta é o pânico, o medo de não conseguir; viver sob a Lei é viver angustiado, atemorizado, apreensivo, temendo o não cumprimento dela. A esse estado de terror os fariseus submetiam seus fiéis.

Jesus apresenta um caminho de paz em contraposição a essa obsessão farisaica pela condenação divina. Ele apresenta uma nova forma de ver a Lei, de subjugá-la, de tornar-se senhor dela, de fazer com que ela o sirva, a fim de que assim ela cumpra seu propósito que é trazer refrigério para a alma (Sl. 19: 7). A Lei é pura, perfeita, santa, agradável, porém o que os fariseus fizeram foi torná-la algo profano, desagradável e insatisfatório. Nós, pois, que cremos em Jesus, tornamo-nos livres disso, não estando mais sob o jugo da Lei, tornamo-nos livres na liberdade de Cristo, de modo que não temos mais o chicote da Lei espancando nossas costas, mas temos a Lei como o caminho agradável de satisfação e refrigério para a alma.

O que isso quer dizer? Isso quer dizer que quando um cristão olha para a Lei, não se desespera, antes se alegra, quando ouve que deve perdoar setenta vezes sete vezes, não pratica isso resmungando e lamentando como se fosse um fardo pesado, não se pergunta se terá que perdoar quando o irmão errar com ele setenta vezes sete vezes mais UMA. O religioso pratica a Lei olhando para o “não”, para a maldição, para o que é proibido, mas o cristão, o que é circuncidado em seu interior, pratica a Lei olhando para o “sim”, para o que pode, para o que deve ser feito. O religioso teme o que não pode, o discípulo de Cristo se agrada no que pode. O religioso sente-se livre do casamento se o outro o trair, pois isso é lícito diante da lei de Moisés, mas o que anda nos passos de Jesus sente prazer em perdoar e tornar livre a alma do que o traiu. O religioso dá o dízimo e pronto, mas o que ama dá acima do que lhe é imposto, não há para ele porcentagem pré-determinada, mas há liberalidade desprendida de valores. O religioso não faz nada no sábado, mas o cristão faz o bem em qualquer dia. O religioso vive fugindo dos ídolos, mas o que em Cristo nasceu de novo só olha para Aquele que deve ser adorado. O religioso luta para não olhar com desejo para outras mulheres, mas o que caminha no espírito valoriza aquela que tem em casa e a ela deseja.

De fato, é quando se entende o prazer que a Lei proporciona, que o homem a absorve para si e a pratica. Eva podia provar de qualquer fruta no Éden menos a do conhecimento do bem e do mal. Ela tinha medo de morrer, mas ouvindo a serpente, pensou que isso não iria acontecer, e por isso comeu o fruto proibido. O que conduz o homem ao pecado é olhar para o que NÃO pode, é buscar o limite de ação, até onde se pode ir sem ser punido, a tendência humana é ir além desse ponto, por isso, nós que somos livres da Lei, antes que a temos como nossa serva, outorgando-nos prazer, refrigério e descanso, caminhamos sem olhar para o que não pode ser feito, mas para aquilo que deve ser feito. Desse modo, enquanto os escravos da Lei vigiam para não tocar na árvore proibida, nós, livres pela Graça, desfrutamos de todas as outras árvores que nos são lícitas, enquanto os da Lei discutem com satanás, nós chupamos manga em outro canto do Éden.