sexta-feira, 15 de junho de 2012

O que você vai ser quando você des-SER

Ao menino se pergunta: O que você vai ser quando você crescer? Isso se dá porque a criança é vista pela perspectiva do "vir a ser". A criança não é, em nossa sociedade, considerada um ser completo, mas em construção. Sua fala é desprezada, seus anseios moldados, sua opinião é sempre invalidada em detrimento da opinião dos mais velhos. Parece-me que à medida em que se apropria do mundo, dos símbolos, da fala, das artes, do conhecimento, dos diplomas, dos trabalhos, etc, e começa a expressar-se e impor-se diante de todos, é que as consideramos alguém, como um ser. Nesse sentido, vemos que, para nós, alguém é aquilo que faz ou fez, que conquista ou conquistou, que sabe, que domina. Quem não possui tais características ainda deverá "vir a ser", e se virá a ser, é porque ainda não "é".

Para Jesus, no entanto, o "vir a ser" que importa é outro. De Seu ponto de vista é um "vir a descer", ou poderia dizer que seria um vir a  "des-SER". É um caminho de humilhação, para Ele subir é ir para baixo, ser grande é ser o menor, amadurecer é tornar-se uma criança. 

Vir a des-SER, é a desconstrução de tudo aquilo que lhe construiu sem de fato ser você mesmo. O jovem rico não era um rico, nem um piedoso, era um homem sedento pela eternidade, mas negou-a por amar mais aquilo que ele mesmo não era, aquela projeção idolátrica de si mesmo. Vender tudo e dar aos pobres, para ele, era equivalente a quebrar os ídolos do paganismo e do moralismo que se havia nele impregnado como visão de mundo correta. "Minha riqueza é a prova de que Deus está comigo" - talvez ele dizia em seu íntimo - "Sou fiel aos mandamentos". Riqueza, fama e piedade eram para ele o ponto máximo que um homem poderia alcançar, ainda que a alma lhe reclamasse o desejo de vir a ser ("que farei para herdar a vida eterna?"), apresentando-se faltoso, carente de algo.

Os discípulos também se afligiram com o mesmo desejo de "vir a ser", eles perguntaram a Jesus sobre quem seria "o maior no Reino dos Céus". Extremamente inundados por essa visão de mundo competitiva, de opressores e oprimidos, de maiorais, de grandeza. Mas Jesus lhes desanima com a seguinte afirmação:"Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos fizerdes como meninos, de modo algum entrareis no reino dos céus". Imagine eles querendo saber qual deles era o maior e de repente são chamados a se converterem, do caso contrário nem passariam pela porta do Reino dos Céus. Jesus acaba com o concurso para "melhor discípulo do mês" organizado por Pedrão e companhia, dizendo que aqueles que não estavam inscritos é que deveriam ser imitados. Sim, as crianças, os pequeninos de coração humilde. Ainda não tomados pelo repugnante desejo de serem grandes, ainda não influenciados pelos discursos de "você tem que ser o maior" propagandeados pelo mundo. Apenas cientes de sua pequenez, da miudeza de seu ser, sem ter do que gloriar-se em si mesmo, diante de ninguém.

Por isso é que cabe à todos os que cresceram e se tornaram grandes, que agora sonhem os "sonhos de Deus" para si, sonhem vir a "des-SER" tudo o que construíram em volta de si, e que não é de fato o "eu" deles. Tornem-se eles mesmos, pequeninos, como eram antes de almejarem conquistar o mundo inteiro para si. Sejam o que eram antes de terem perdido a própria alma com a finalidade de conquistar todas as coisas à sua volta. Sim, é possível conquistar o mundo inteiro e se perder eternamente. Sim, sejam pastores de ovelhas ao invés de administradores de empresa no comércio da fé. Sejam homens que amem suas esposas e filhos ao invés de ambiciosos correndo atrás do conforto inalcansável. Sejam pecadores salvos pela graça ao invés de religiosos caçadores de prosélitos para uma fé que nem mesmo vivem. Sejam que eram antes de almejarem tornar-se grandes conquistadores.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Quem diz que é já deixou de ser


É claro que devemos manifestar nossas obras diante dos homens a fim de que o Pai seja glorificado, mas se para isso tivermos que agir tagarelando que "é para Deus" o que estamos fazendo, justificando nossas atitudes com nossas teologias, filosofias de vida,etc, não estaremos sendo nem um pouco diferentes dos religiosos que vivem em busca de prosélitos para sua religião hipócrita e destituída de sentido. E nisso estaremos passando longe da religião de Jesus. Sim, pois, para Ele, as obras de justiça que glorificam ao Pai são aquelas que "excedem em muito" às aparentes obras auto-justificatórias dos fariseus. Nada para ser visto, nada para ser justificado, apenas justiça por justiça, sendo resultado da justiça divina no mais íntimo do que crê. Esse não precisa dizer: "Estou te dando esse pão em nome de Jesus", ou "estou te perdoando porque Jesus mandou", ou ainda qualquer outro "eu faço isso porque sou cristão". Ora, se você tem que dizer que é, já deixou de ser. 

Devemos, ao contrário disso, viver fazendo o bem como quem fora de fato enviado por Cristo, por um constrangimento interior, não por um dogma frívolo e ególatra, não por um ideal castigante que nos seja imposto exteriormente. Devemos perdoar pelo constrangimento do amor que se revela por nós na Cruz, não por uma ordenança destituída de sentido, uma obrigação imposta, um "eu não quero perdoar, mas Jesus mandou", é o amor que nos constrange. Devemos crer e ser (e assim crescer) à partir do que cremos, e não justificarmos o que não somos utilizando aquilo que dizemos crer como discurso para nos justificar.

É por estar nosso cristianismo por muitas vezes acima de Jesus que nos vemos assim esquizofrenizados espiritualmente. Carregando aquela culpa por ter sido útil a alguém, mas não ter falado de Jesus para a mesma pessoa; sentindo-se o mais covarde de todos os homens pelo fato de não ter feito um apelo para que o mendigo "aceitasse a Jesus como Senhor e Salvador" depois de ter lhe dado algo para comer; é por isso que enchemos a paciência de nossos professores em sala de aula, com discursos emburrecidos e ofensivos, pois se apenas formos seres inteligentes e realmente compromissados em fazer o bem através daquilo que estamos estudando, estaremos "amando demais a esse mundo" e "esquecendo da eternidade".

É por isso que somos chatos, e que nossas obras não glorificam a mais ninguém além de nós mesmos, através de nossa religião. Nosso gozo está no crescimento do número de membros em nossas igrejas, de modo que os mendigos só ganham valor para nós quando se encontram em duas condições específicas. A primeira é na condição de "mendigo" mesmo, alvo de nossa compassividade hipócrita, oportunidade para que satisfaçamo-nos com o gozo dissimulado dos que encontram nele somente a oportunidade de fazer valer sua religião. A segunda é a condição de "ex-mendigo" quando estão dentro de nossa igreja, bem vestidos, alinhados e carregados dos mesmos jargões que usamos, afim de que possamos apresentá-lo aos outros irmãos, como se fossem os nossos "micos de circo", aqueles a quem "evangeli-mesticamos" (ou "domesticamos com nosso evangelho"). 

Não me importo em falar assim, pois se você não é um desses (diferente de mim), então não se sentirá nem um pouco incomodado, mas se é um desses (assim como eu), então precisa repensar o modo como tens caminhado no Caminho. Oxalá aprendêssemos a viver com o samaritano da parábola, pois ele não deixou no hotel um recado (para o homem que encontrou ferido) escrito assim: "Tem um monte ótimo para adorar ao Senhor logo ali em Samaria, apareça, espero por você. Att. O samaritano que cuidou de você, ao contrário dos judeus que nada fizeram. Paz do Senhor".   

domingo, 3 de junho de 2012

O evangelho segundo os moleques de pinto "en-cãibra-do"


A partir da idéia de Heráclito, o psquiatra C .G. Jung, explicou a revolta do espírito dos homens e mulheres modernos diante da exaltação dos valores deste mundo em detrimento dos valores espirituais. Jung afirmava que a alma humana é movida por opostos, necessidades e instintos, e que a tensão entre eles é o elemento gerador de vitalidade e criatividade. Seguindo essa lógica, toda vez que uma tendência oprime o seu oposto, essa tal tendência oposta, em algum momento inicia uma revolta, afim de encontrar novamente o equilíbrio. 

Como a opressão de um castigador desperta a revolta do oprimido, assim também se comporta o espírito humano quando oprimido por alguma tendência. Por isso, o triunfo do racionalismo, construiu um mundo de pessoas desiludidas, famintas pelas "coisas do espírito", e que agora reinvindicam o direito de simplesmente "sentir", de descobrir-se, de navegar pelos misteriosos mares de sua existência.

Pensando nisso, o que dizer sobre os anos de mutilação, de padronização dos indivíduos, de arregimentação manipulativa por parte das instituições eclesiásticas? Que tipo de revolta essas não provocariam no espírito humano? Não me espanta a tão frequente desistência por parte de muitos, em construir uma vida religiosa "dentro" de uma Igreja. Está crescendo o movimento "ser Igreja", guiado pela necessidade de dedicar atenção aos oprimidos deste mundo, exaltando o amor como única Lei suprema, abandonando os dogmas e valorizando o encontro com Deus na interioridade. Essa é a tentativa do espírito humano de equilibrar as coisas. Ora, deste movimento sou adepto, pois para mim jamais houve outro movimento senão esse mesmo. 

O que me preocupa é que outrora me alegrei ao ver os que despertavam para o real sentido do Evangelho e que viam para além da hipocrisia institucional, mas hoje entristeço-me ao ver o rumo que alguns tem tomado. Esses que, tendo começado bem, estão terminando mal, e muito mal, vêm nulificando a própria existência, presunçosamente cavando com os pés seus próprios abismos. Correndo para o extremo oposto do que se tem visto em muitas instituições religiosas, como a alienação social, a coagem dos mosquitos aliada ao saboreio dos camelos, a dominação dos líderes sobre seus liderados, a ideologia do "Deus disse para não comerdes de toda a árvore do jardim (Gn. 3: 1)", cujo idealizador foi o próprio Satanás; e nessa corrida, estão abrindo-se para o ativismo, para o "tudo pode" inconsequente, para o "ninguém é de ninguém", e assim não vão sendo nem mesmo de Cristo. São pirralhos, deviam se unir ao cantor Alexandre Pires em sua indagação: "O que é que eu vou fazer com essa tal liberdade [...]?". Parece que não sabem viver livres. 

Tais são moleques de pinto "en-cãibra-do", pois viveram uma vida tão regida pelas normas da religião, pelas tormentas culpabilizadoras, pelos "não pode", que agora resolveram chutar o pau da barraca, se tornarem livres de todo comprometimento com a Lei, relativizam-a toda. São como moleques que, de tão reprimidos, quando se vêem livres das proibições neuróticas, das endemonizações sexuais, passam a sofrer de "cãibra no pinto", decorrente de suas tantas masturbações existênciais.

Descobrem que beber não é pecado como lhe haviam anteriormente ensinado, então enchem a cara, pegam todas, curtem suas baladinhas descompromissadas, e vão cuidar dos pobres no dia seguinte (afinal é SOMENTE isso que importa, não é?). Se afastam tanto da fé, que já não mais oram, pensam que é tudo neurose religiosa, lêem a bíblia somente para debatê-la, pois agora tem Marx para ampará-los. Por compreenderem (e corretamente o fazem) como malina a dicotomia sagrado x profano, lançam-se à profanidade, não acompanham o Mestre nem uma hora sequer. O apóstolo Paulo desesperançosamente, lhes diria: "Assim como nunca me obedeceram, sei que muito menos agora em minha ausência, virão a me obedecer, pois não tem temor algum por coisa nenhuma". Não suportam uma única exortação. Abandonaram todo e qualquer referêncial.

Moleques! Saibam que não fomos chamados para a hipocrisia, e muito menos para a libertinagem. Não sabem que quem serve ao pecado é dele escravo? E a quem vocês servem? Veja como gozam e já não sentem prazer algum, como estão presos a Cristo somente por discurso, mas fazem do próprio corpo instrumento de impurezas, e da vida razão de escândalo para os pequeninos. Peço a vocês que relativizem sim todas as coisas, mas relativizem-nas pelo amor. O amor é capaz de relativizar toda ética e moral, qualquer outro sentimento que busque fazê-lo, levedará toda a massa, principalmente a presunção sapiencial. Pois, de que vale saber que não é pecado ouvir "música do mundo"? Somente o prazer de desrespeitar os mais conservadores? Tentarás a consciência alheia porque a sua está limpa? Como lhes mostrarão a verdade? 

Vejam se não é assim que muitos tem vivido. Fogem da vigilância ditatorial das instituições hipócritas, afim de se verem livres para agirem como quiserem. São libertinos. Julgam saber muito, mas nada sabem como convém saber. Seus ancestrais são os coríntios, inchados pelo saber, de tal modo arrogantes, permitem entre eles impurezas tais que escandalizam até mesmo os incrédulos.

Irmãos, não fale em amor sem amar. Em amor, o Mestre sujeitou-se à Lei e também enfrentou seus defensores (da Lei) quando fora necessário, mas em tudo buscou salvar a todos. Assim como Paulo, que O imitou, busquemos, não o nosso próprio querer, mas o de muitos, para que sejam salvos. A todos que outrora tinham a religião como vosso senhor, assenhoreiem agora e sempre a Cristo em vossos corações, com temor e tremor, pois a Ele, todos prestaremos conta. 

Por mais um dos que nEle lutam para manter-se equilibrados num mundo de opostos. 

Os mais que infelizes

Há uma felicidade maior que a de um cego que passa a ver, que a de um paralítico que passa a andar, que a de um cativo que se torna liberto. Sim, essa é a proposta de Jesus nos evangelhos, visto que o “levanta e anda” que Ele disse ao paralítico, foi tão somente para que os "da platéia" cressem, enquanto ao que carregava a vergonha e o peso de culpa imposto por aqueles que o viam como um pecador mais pecador (pelo fato de ter de ser carregado para ir a um lugar ou outro), bastava ouvir: “os seus pecados estão perdoados”, e nisso encontrara felicidade maior que vida. Sim, a Graça é melhor que a vida, posto que sem a Graça, a vida, ainda que repleta de mecanismos produtores de felicidade, não tem graça nenhuma, perde o brilho, não se faz suficientemente satisfatória. 

Ora, para o paralítico não era uma vergonha ser paralítico, o que tornava sua condição vergonhosa era a estrutura social na qual estava inserido, eram as zombarias das crianças ensinadas por seus pais a vê-lo como um maldito, esquecido de Deus. Era a impossibilidade de alcançar perdão da parte de Deus, visto que não devia ter condições financeiras para comprar o perdão que se vendia nos templos. Isto posto, imaginava-se então, que somente um milagre poderia apagar a vergonha daquele homem, somente se ele passasse a andar, arrumasse um emprego e com seu salário pagasse um sacrifício no templo, pela mediação dos sacerdotes, receberia então o seu perdão. O Filho do Homem, no entanto, tem poder para operar milagres, mas ainda mais, o maior milagre de todos, o que é impossível aos homens, mas possível a Deus, o de salvar a alma, de perdoar os pecados. Talvez a ciência se ocupe de reverter as outrora irreversíveis condições humanas, fazendo paralíticos recuperarem movimentos, cegos tornarem a enxergar, medicando as doenças psíquicas, antes tidas como possessões demoníacas, mas perdoar pecados é coisa que só Deus faz. Nisso reside a felicidade maior que a vida, e daí mesmo nasce um caminho de felicidade elevada acima das alegrias que se pode sentir nesse corpo.

É o que o Mestre propõe ao proferir suas bem-aventuranças. Rodeado por ex-cegos, ex-paralíticos, ex-endemoninhados, Ele começa dizendo-lhes uma lista daqueles que são “mais que felizes”. Mais felizes que os que tiveram sua condição de tristeza transformada, cujo lamento tornou-se júbilo, cujo corpo deixou de ser dominado por espíritos malignos, Ele diz, são os pobres, os que choram, os mansos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os limpos de coração, os pacificadores, os perseguidos por causa da justiça e pelo nome dEle. Ele está dizendo que a maior felicidade não reside no fato de sermos “ex-alguma coisa” e sim em acolher no coração o Reino de Deus, tendo-o como preciosíssimo para a sua existência. Isto de tal maneira que viver aqui não seja em busca do aplauso dos homens, nem das fortunas, nem se gloriando em suas próprias obras, mas gloriando-se nEle, como um mendigo que exulta em gratidão ao que lhe estende a mão em ajuda; que viver aqui seja em lamento pela condição desse mundo caído, cônscio da infinita distância que há entre aquilo que somos e o que deveríamos ser; que viver aqui seja lançando a Deus o direito de vingança, de tal modo que o prejuízo vivido não seja compensado com o ódio; que se tenha fome e sede por equidade, pela verdade; que a misericórdia brote no coração do que compreende-se necessitado de receber a mesma misericórdia da parte de Deus; que o coração não carregue as máculas do ódio, da condenação; que façamos paz e não guerra; que as perseguições não nos façam esmorecer no propósito de tornar reais todas as bem-aventuranças anteriores; que a perseguição por parte das trevas seja razão de alegria, pois apenas nos mostram que estamos no correto caminho.

Mas quero alertar que o contrário disso é também possível. Pois se há como ser mais que feliz, há também como ser mais que infeliz. Sim, há sempre como ir mais fundo que o fundo do poço. Há uma desgraça maior que qualquer sofrimento. Há a possibilidade de se ter saúde, riqueza, autonomia, e ainda assim viver mais infeliz que um pobre escravo doente. Nesse caso, se lermos as bem-aventuranças ao avesso, encontraremos a receita para a infelicidade mais profunda, e, pasmem, tem muita gente que segue essa lista à risca.

E aí está ela, a receita para uma vida de infelicidade profunda: Se pense agradável a Deus por si mesmo, ame os aplausos dos homens e as riquezas deste mundo, viva sempre uma vida estética, maquiando-se para receber os elogios dos homens; aliene-se de tudo o que causa dor na alma, vista a mais sólida armadura da indiferença, de modo que não derrame uma lágrima sequer por coisa alguma, sim, preserve sua vida com tudo o que puder; viva a retribuir o mal com o mal; ame a mentira e o engano, desprezando tudo que se possa chamar de justo; não se veja necessitado de perdão algum, e assim torne-se, portanto, livre da responsabilidade de aceitar a imperfeição de teu próximo, sim, se pense perfeito, encha-se de tal arrogância e presunção; aceite como naturais as máculas em seu coração; tenha sempre o desejo de oprimir e dominar sobre outrem; não opte pela justiça, antes, preserve sempre a si mesmo (cabe dizer isso novamente); e por fim, assuma seu lugar em meio à multidão dos que zombam dos profetas e não lhes dão ouvidos, prepare sua melhor pedra e arremesse no meio da testa de alguém que fala segundo a verdade. Sim, siga essa lista e seja “mais que infeliz” em sua existência ou considere tudo o que Jesus falou, crendo, sendo e assim crescendo na Graça e no conhecimento de Deus, desfrutando daquilo que seja a mais intensa forma de ser feliz.

Por mais um dos que sabem que há uma felicidade maior que tudo na vida.  

quarta-feira, 28 de março de 2012

Sem limites



Alguém dirá ser uma criança limitada ao considerar todas as coisas que um adulto pode fazer, mas quem dirá ser um adulto limitado por não conseguir sentar-se a brincar com os amigos? Há coisas de crianças, e há coisas de adultos, mas se compararmos um com o outro, ambos se mostrarão limitados. Dizem haver deuses e homens, e que homens são limitados em comparação aos deuses, mas já se questionaram se os deuses não são limitados se comparados aos homens? Um deus que só consegue ser deus está limitado às coisas que dizem respeito à sua divindade, tanto quanto um homem que não pode ser nem tornar-se divino. Homens são, portanto, limitados porque não podem ser deuses e deuses, por sua vez, são limitados porque não podem ser homens. 

Mas pode um adulto romper os limites de sua maturidade e tornar-se novamente criança? Pode uma criança crescer e tornar-se adulta? Claro que sim. Mas escândalo seria afirmar que pode um Deus tornar-se homem, assim como afirmar que homens podem tornar-se deuses em Deus. O Divino na carne, plantou no homem a semente divina. O Verbo Encarnado, tornando-se semelhante ao homem, feito menor que os anjos, não pode ser considerado limitado por isso, justamente o contrário, é o fato de Deus tornar-se homem que Lhe faz transcender a todos os limites possíveis. Um deus que só é deus está limitado se comparado aos homens. É frio, indiferente, distante de suas criaturas, de seus conflitos. Mas um Deus que torna-se como os que Ele mesmo criou, prova que desconhece plenamente qualquer coisa que se possa chamar limitação.

E ainda, enquanto homem, quando Ele chora, se angustia, ama, se compadece, se entriste e enraivece, ou ainda se cansa a ponto de cair em profundo sono, ou apresenta desconhecimento intelectual acerca de coisas que devem estar ocultas a toda a humanidade, não está apresentando qualquer limitação, mas prosseguindo para além dos limites dos homens que, sendo humanos, menosprezam e perdem sua humanidade. Sim, limitado é o homem que não consegue chorar, que não se entristece, que não se angustia, que não ama, que não teme, que pensa não ter o direito de dizer que está cansado, que não aprende com o outro, que não apresenta a capacidade de se humilhar, que não aceita o fato de não lhe caber o entendimento acerca de todos os mistérios. Esse conhece os limites da arrogância, da presunção, da soberba, do orgulho, da inveja, do ódio. Tais coisas são limitadoras. O que é bom, ainda que pareça ser limitado, não o é, pois vai, por vontade própria, até onde quer ir. Quando o Mestre disse ao Pai que fosse feita a vontade dEle, não estava apresentando qualquer limitação, mas estava rompendo os limites do orgulho humano, da auto-suficiência. Se fomos criados para estarmos sujeitos a Deus, submetermos à Ele nossa vontade é onde reside a real liberdade e a total ausência de limites.

Assim como uma criança deve brincar ao invés de trabalhar, desfrutando da total liberdade que os jogos lhe propõem, estando livre de ser chamada de limitada por isso, também o homem-Deus que foi "obediente até a morte" jamais desfrutou de qualquer coisa que se pudesse chamar limite, antes, foi além de tudo o que poderia limitá-Lo, seja como Deus e como homem.

Como Deus, Ele tornou-se próximo, compadecido de nós, e sendo homem, tornou-se perfeito humano, livre das limitações dos "adultos". Há os deuses dos mitos, que são limitados, que não conseguem compadecer-se da dor dos homens, que não descem dos céus, que não vêm até os homens, que não sofrem suas dores, esses, de fato, não são deuses, mas o Deus que se faz Sumo Sacerdote e, sendo homem "santifica a Si mesmo", Esse é, sem dúvida alguma, o Deus verdadeiro.

O que tento afirmar aqui é o fato de ser limite para um deus tornar-se como sua criatura, assim como é limite para um homem não ser capaz de exercer a plenitude de sua humanidade, de modo que o homem que não consegue ser plenamente humano e o deus que não pode ter marcadas em si as dores de suas criaturas são igualmente limitados. E concluo dizendo que Jesus foi mais Deus do que qualquer outro deus, e mais homem do que qualquer outro homem, Ele foi Deus e Homem...sem limites.

Por mais um dos que creem no escândalo da Encarnação de Deus.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Todos os pecados dos homens lhes serão perdoados, exceto...

A blasfêmia contra o Espírito Santo, a negação da Verdade, o descrédito dado àquilo que se credita simplesmente por não querer crer. Isso mesmo, os fariseus dissimularam contra a Verdade que se confirmava diante de seus próprios olhos, tiveram o vislumbre da glória de Deus a revelar-se no Filho, que, encarnado, efetuava obras por onde passava a fim de confirmar Sua autoridade.

O testemunho do Pai, as palavras de sabedoria, o proceder de Seus filhos, era inegável que o Espírito de Deus estava sobre Jesus. O próprio Nicodemus afirmou isso. Mas, tomados por inveja e ódio, movidos por seus interesses políticos, os religiosos tentavam a todo custo não crer naquilo que não tinham como negar: que sobre Jesus repousava o Espírito Santo.

Daí a afirmação dos fariseus ser tão infeliz, pela carga de hipocrisia que carregava. Ora, possuídos por sua dissimulação, eles não poderiam crer em Jesus, não poderiam receber o Reino, não poderiam ser lavados por Suas palavras, e assim, permanecia sobre eles a condenação.

Sem lavar-se, o homem permanece sujo. Por isso, o que, à semelhança dos fariseus, blasfema contra o Espírito, permanecerá atormentado pela culpa que "não lhe será removida".

Haverá para eles outro Cristo? Outro sangue há que seja preferível ao blasfemo, que possa ser derramado para que o mesmo nele se lave? O poder de Deus estava manifestado ao mundo em Jesus, de modo que todos se maravilhavam, alguns, inclusive os de Sua casa, consideravam-no louco, outros, dissimulando contra a Verdade, desprezavam a graça que lhes fora concedida, vendo o que muitos profetas desejaram ter visto, não quiseram enxergar o que era evidente diante de seus olhos, estes o consideravam porta-voz do inferno, o Belzebu.
Por isso não podem ser lavados, pois assim rejeitaram ser, de modo que sobre eles permanece a condenação. Assim, todo pecado será perdoado, menos o de não banhar-se no Sangue precioso, de não lançar-se no Teu mar de Graça, de desprezar Teu amor, de negar que Deus perdoa os pecadores, mesmo vendo-O perdoá-los. Quem assim blasfema contra o Espírito do Evangelho, permanecerá debaixo de condenação.

Por mais um dos que não vêem outra possibilidade, diante da glória que se-nos revelou, senão a de crer no Deus da Graça.        

domingo, 25 de dezembro de 2011

Aquele que sustenta todas as coisas, fez-se coisa...

Aquele que sustenta o mundo todo, sendo o Início de todas as coisas, tornou-se coisa...

Nos braços de uma mulher comum clamou por sustento;

junto a um homem comum aprendeu o labor dos oprimidos;

nos abraços de homens comuns encarnou a fraternidade;


pela angústia de homens comuns chorou pesadas lágrimas;

pelas mãos de homens comuns foi entregue à dor.

Ele nasceu, cresceu e padeceu sendo coisa. Deixando a glória que tinha, reduziu-se a coisa alguma.

Igualmente, nós também, reconheçamos a insuficiência de nossa independência, a ponto de contarmos com o cuidado dos outros, sem qualquer medo de parecermos assim pequenos ou tolos.

Saibamo-nos insuficientemente espertos, acabados ou sábios, a fim de que nossos corações se abram humildemente, para que ouçamos os ensinos de nossos irmãos, para que aprendamos com os que também laboram o labor da vida.

Encontremos em cada abraço, um irmão, em cada ceia, uma festa de amor.

Sintamos o choro do mundo, angustiemo-nos diante da dor alheia, soframos a paixão do outro, nos desenclausuremos de nós mesmos.

Cada um de nós suporte com esperança as injustiças, e jamais permita que a fome e a sede por justiça sejam apagadas pelas aflições ou contradições do tempo presente, antes, que a maldade seja chuva a regar o coração justo, fazendo crescer a semente da esperança eterna nele semeada, e tendo tornado-se tronco robusto, dê frutos que permaneçam.

Pois, o Deus de todas as coisas fez-se comum, como um qualquer, como eu e você, e se Ele assim foi, sejamos também, portanto, fortes o suficiente para sermos fracos e dependentes, humildes, inacabados, simples, guardando a esperança e buscando o amor, comuns.

Que Cristo nasça em cada um de nós, e feliz seja tal nascimento, pois se Cristo não nasce no coração do homem, para este, de nada adianta que Ele tenha nascido em qualquer outro lugar ou tempo. Amém.

sábado, 12 de novembro de 2011

"Vai lá e volta aqui"

Um olhar triste e reflexivo, uma vassoura em mãos, uma pausa no trabalho...uma simples servente da universidade, paralisou o dia de um universitário, imprimiu-lhe a simplicidade, ensinou-lhe algo para além da reflexão.

"O que pode haver que seja tão digno de receber o tempo dessa mulher? Por que seu olhar está tão distante?" - Tais questões intrigavam o universitário.

"Por que você está tão longe mulher?" - Perguntou o moço curioso.

"Você acha que eu tô longe é?" - Respondeu-lhe com alegria, pois não perdera a sensibilidade necessária para apreciar cada encontro, mesmo estando todos os dias a limpar os corredores por onde passam corridos aqueles que não tem tempo para encontros que não se encontrem em sua agenda. Assim alegrou-se por ter sido dada a ela a oportunidade de partilhar das maravilhas nas quais meditava.

Ela refletia sobre a morte e sua angústia, sobre a dor e a misericórdia, sobre a resposta que se deve conceder ao que é incompreensível. A notícia do dia era que um jovem policial matara a própria mãe e cometera suicídio. Quem compreenderá tal atitude?

"Ele merecia morrer mesmo" - Diriam os que desacreditam totalmente dos recomeços, e lançam para fora do navio da existência qualquer "peso inútil e desagradável".

"Ele era louco e precisava ter sido tratado." - Diriam os mais misericordiosos e que acreditam na possibilidade de se prever os desalinhados movimentos da psiquê e neles intervir.

"Como alguém assim podia estar em tal função?" - Diriam os que estão demasiadamente preocupados com a massa para perderem tempo com as dores dos indivíduos.

Mas essa tão surpreendente personagem, não perdia tempo em discussões e conclusões tão tolas, ela fora além e voltara.

"Diante disso a gente faz assim: Vai lá e volta aqui." - Ela afirmou. Por isso estava distante, porque estava "lá" em sua própria dor, na perda de um tio há poucas semanas. Já eram avançados seus dias, e por isso morrera. Ele se foi, e carregou consigo um grande bocado da história daquela simples senhora, no lugar deixou saudade, lembranças de sua bondade.

Então, possuída pela angústia da perda, ela "voltava aqui", no tema inicial de sua reflexão: o jovem assassino. Ali estava a simples faxineira, varrendo seu interior, colocando as coisas no lugar, para não suceder que a dificuldade que possuía em compreender as atitudes daquele jovem assassino, lhe matasse também o ser, para que não fosse ferida pelo ódio ou por seu próprio desejo por justiça.

Ela perdera alguém, e grande era sua dor, mas tal perda fora natural, como convém a todos, ao contrário dos que perdem alguém de modo tão brutal. Ninguém julga a morte quando ela vem como fato natural da existência, como mero fim de uma longa jornada, mas quando pela imoralidade é arrancada brutalmente a vida, então cabe a todos os ofendidos julgarem a causa. No entanto, aquela simples faxineira não se via no direito de julgar nada a não ser que "o rapaz estava longe de Deus". Sim, ela tivera tempo para olhar para o caso, considerando a miséria do réu.

Entre suas idas [às suas próprias dores] e vindas [às dores dos familiares e do réu], lágrimas desciam por sua face, não somente pela perda de seu tio, mas pela miséria do jovem assassino, pela dor dos parentes que viverão com tão terrível lembrança, pela mãe que morrera pelas mãos do filho.

Tendo feito a limpeza de seu próprio ser, com o auxílio dAquele que sempre lhe acompanha e lhe consola as dores, a simples faxineira tornara-se Luz, singela e humilde em um mundo caótico, superara a própria dor, vencera as próprias questões, derrubara o ódio, alimentara-se de compaixão e graça, enchera-se de prudência e agarrara-se ainda mais ao Seu Consolador. Ela não possui diploma nem conhece a vida por meio de artigos, não tem capacidade de pensar em soluções para nossa sociedade, mas mostrara, sem a intenção de fazê-lo, que estava muito mais preocupada em salvar o mundo do que julgá-lo. A vida ela aprende na dor, na angústia e no Consolo, no desespero e na Redenção, no encontro com Seu Criador, no quarto escuro de seu próprio ser. E no universo das reflexões, nenhum filósofo apresentou tão grande capacidade reflexiva, pois basta "ir lá e voltar aqui" com Deus para que tudo seja muito mais que idéias e conclusões éticas, sejam Vida e Paz.

domingo, 25 de setembro de 2011

Somos quem podemos ser

Para Pedro, ser discípulo era ir até a morte, era caminhar bem colado em Seu Mestre, era encher-se da poeira de Seus pés. Pedro buscava ser tal discípulo, era essa sua utopia, ele queria ir até às últimas consequências, queria ser reconhecido como o mais apaixonado dentre os seguidores do Mestre, e estava disposto a ser o melhor deles.
Tendo projetado sua imagem de díscipulo perfeito e caminhando após ela, Pedro seguia a si mesmo, passando longe de Seu real Mestre. Obstinado por ser o melhor discípulo, deixou de simplesmente ser discípulo de Jesus. Seguindo sua própria imagem de perfeição, fez promessas maiores que si mesmo e mais tarde chegara a arrancar a orelha de um soldado romano, apenas pela preservação de sua honra.
De fato, o Reino do Céus é um convite ao sonho, um chamado à utopia, embora seja muito mais que uma simples utopia pois o Reino é real, e utopias são somente projeções inalcançáveis. Todavia, esse Reino cresce em nós, multiplicasse, dá frutos em seu tempo, passa por várias estações, enfrenta tempestades e tempos de seca, e em todos os tempos reage de modo específico e singular.
Sonhar ser como o Mestre, seguí-Lo até o fim, não é errado, é, antes, o objetivo de todo discípulo. Porém, ser como Jesus é um Caminho, não uma obra mágica, instantânea. Como o próprio Mestre disse acerca da morte de Pedro, ele fora manietado, levado preso para onde não queria, tornou-se um mártir. Apesar de não ter nascido mártir, ele aprendeu a caminhar para o martírio. Nesse caminho, ele encarou a realidade, encontrou-se, foi amado e continuou a caminhar nesse Amor.
É fato que nossas projeções, quando cruzam-se com os conflitos, com a realidade, são desmascaradas. Nossos anseios são tidos como irrealizáveis, inalcançáveis, distantes demais de nós mesmos. O Mestre sabe disso, sabe tanto que diz que o "bom terreno" para o florescimento do Reino de Deus, é o coração que não se alegra somente com projeções, mas encara a realidade da provação com firmeza, percebe suas fraquezas e não se desespera, suporta as perseguições sem desanimar.
Diante disso, o Mestre disse a Pedro que este O negaria. Jesus sabia que quando a vida apertasse, Pedro afrouxaria, quando a realidade desnudasse sua alma, revelando suas fraquezas, Ele se angustiaria e correria o risco de desistir da caminhada, por isso lhe avisou com antecedência tal fato.
Pensemos a quantas projeções, anseios, ambições por "ser" nós estamos submetidos. E como tais projeções, ao ruírem diante da realidade de nosso ser, não nos fazem sucumbir em angústia e cair em choro amargo. Ora, vejamos os pais que se pegam em lágrimas diante de seu fracasso, os filhos que choram diante de sua própria rebeldia, as esposas angustiadas ao verem que o amor in-"condicional" prometido no período de namoro não suporta a "condição" da traição, os religiosos frustrados diante de sua incapacidade diante da Lei. São todos estes, caminhantes na existência, em busca de ser quem não são. O amor é sua utopia, mas sua realidade enferma lhes revelam a pequena dimensão de seu próprio ser.
Estes, ou agridem-se, ou se mascaram e fogem da realidade que há em si mesmos.
Somos cheios de imagens acerca de quem deveríamos ser, caminhamos após elas, buscamo-las, mas não as alcançamos.
Uma conversa sincera com o Cristo ressurreto é o bastante para realinhar nosso espírito.
Pedro, o fracassado discípulo, é chamado para essa conversa, na beira da praia.
"Sim, meu amor por ti é maior que o dos outros".
"Sim, eu te amo, Senhor".
"[Entristecido] Tu sabes de tudo, sabes do meu amor por ti".
Pequeno amor, mas era o que Pedro tinha. A medida necessária exigida pelo Mestre naquele momento. O Mestre nunca exigiu mais do que Pedro tinha a oferecer, a utopia petrina sim.
Para Ele, bastava que Pedro fosse Pedro.
Para Pedro, ele tinha que ser Jesus. Mas, só Jesus é Jesus desde sempre. Eu e você temos que ser aos poucos, e assim "ir sendo", crescendo, pedagogicamente guiados pelo Espírito e provados pela vida. Assim, Pedro "vai sendo" Pedro até chegar a ser como Jesus.
Nós somos apenas quem podemos ser, e assim "vamos sendo" apenas quem somos, até sermos quem Ele é, e Ele será tudo em todos nós. Aleluia. Isso é o que Jesus diz para Pedro, para mim e para você: "Segue-me tu". É como dizer: "Vem sendo você mesmo após mim". Sem angustiar-se com seus fracassos diante de suas utopias, lançando toda palha no fogo, para simplesmente seguir caminhando com Ele.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Tesouros in-corruptíveis


Leia Mateus 6: 1- 4, 19- 24.

Diante da corruptibilidade de tudo o que se vê, é fácil que qualquer um chegue à conclusão de que é totalmente inútil acumular e acumular posses em nossa existência. Quem pára para pensar um pouco que seja sobre a morte, ou se faz louco, dizendo: “Acumularei mais e descansarei em minhas riquezas antes que venha o meu fim”, ou se deprimirá ao notar a inutilidade de tais posses diante das necessidades que teu próprio ser lhe requerem.

Em ambos os casos, a alma continuará gritando por algo que ainda não encontrara. É nesse momento que o Mestre [ordena] convidando para Seu Reino a todos os que já não se satisfazem em servir a Mamom, incentivando-os a ajuntarem um tesouro “in-corruptível” [quem dera alguns pregadores compreendessem quanto mais valem os tesouros “in-corruptíveis” que os corruptíveis...].

E é aí mesmo, do lado de dentro, que se ajunta esse tesouro “in-corruptível”, visto que não é através da prática religiosa e purificadora de mente dos que dão esmolas [dízimos, ofertas, etc] apenas para massagearem o próprio ego, nem através dos atos hipócritas de quem dá tudo o que tem desde que de seu lado haja quem o aplauda, pelo contrário, nem mesmo tua mão esquerda saiba o que faz a direita, para que não se juntem a fim de aplaudirem a ti mesmo. É assim, com a consciência posta diante de Deus [pois diante dEle ninguém tem do que gloriar-se], que ajuntamos tal tesouro.

De fato, é dando que se recebe, é vendendo tudo o que tem e nivelando os vales da pobreza com o lucro, dando as “túnicas” que nos sobram e o alimento do qual não necessitamos aos que necessitam e não tem, que investimos em nossa “poupança celestial” (como fora dito ao jovem rico). A proposta aqui é algo como: “Queres mais? Então viva com menos”. Uns pensarão ser isso apologia à pobreza, eu apenas digo ser apologia à igualdade e à justiça. Não furte o pobre, deixando sua comida apodrecer na dispensa.

Não pense que isso é alguma defesa a uma política pública paternalista, isso é apenas o que vem antes de qualquer política pública, é o destronamento de Mamom em nossos corações. Pense nisso.

Por Gustavo Marchetti, nAquele que nos reservou tesouros in-corruptíveis.

domingo, 14 de agosto de 2011

Tudo ou nada

Ver Lucas 14: 15-35

Para ser discípulo de Jesus é preciso possuir por Ele um amor transcendental, um amor que faz com que a afeição erótica, fraterna, filial e paterna sejam tão pequenas quanto o ódio.

Para ser discípulo de Jesus é preciso negar diariamente tudo o que nos constitui como ser, encravando esse “eu” na cruz. Tem que abandonar os conceitos e preconceitos, crucificar os sofismas, assassinar as vontades que centram-se em si mesmo, liquidar seus dogmas morais e de justiça própria, abandonar sua própria construção psico-histórico-social, deixar de ser em si mesmo.

Para ser discípulo de Jesus é preciso renunciar a tudo o que se diz “é meu” dentro do coração, para que nada, “sendo seu”, venha a crescer e entronizar-se ali. Tem que caminhar como quem não possui coisa alguma.

Ora, só é possível seguir o Mestre nesse caminho, para quem nada tem; nem gente, nem posses, nem reconhecimento. Só se assenta nessa mesa e ceia com o Mestre, os cegos, leprosos e pobres.

Sim, somente eles conseguem aceitar esse convite ao discipulado de Jesus, pois nada são, a ninguém tem consigo, e coisa alguma possuem.

Portanto, esses, diante do chamamento, não encontram razões para se desculpar, não tem como dizer que irão cuidar de seus bois ou terrenos, e nem mesmo terão de se afastar por causa de sua lua-de-mel.

Ora, esses são os que terminarão a edificação da torre, ao contrário daqueles que param no meio da construção, por falta de verba. Esses são os que não entram na guerra para perder, antes, se vêem que não podem contra o inimigo, logo pedem a paz. Esses são os que calculam os gastos da empreitada, que analisam o quanto lhes custará ser discípulos de Jesus, e diante disso “vendem tudo o que tem e o seguem”, ao contrário dos que, entristecidos, retornam para sua “vida” sedenta por Vida.

Aprendamos com os pobres, cegos e leprosos.

Por Gustavo Marchetti, no Caminho com Ele.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Deus é amor apesar de nossa dor

Saibamos que o Amor-de-Deus-em-Cristo-É, e se manifesta independente do sofrimento ou da ausência do mesmo. Na realidade, não há dor que não seja manifestação desse Amor [que não pode ser definido pelas circunstâncias, pois esse "Amor É" apesar das circunstâncias], pois cada doença e cada cura são apenas gotas de água diante do oceano do Amor divino, são parte de um todo que só pode ser apreciado se visto por inteiro, do contrário o que se faz é murmurar dizendo que uma gota não nos é suficiente para satisfazer a sede.

Tendo isso em mente, o desfrute do Amor de Deus pode se apresentar na tristeza e na alegria, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, derrubando assim a significação das “bênçãos-que-haverão-de-vir” tão desejadas e esperadas atualmente. A esperança de muitos hoje é para aqui e agora, porém ainda não, esperando, talvez, a vontade e o tempo de Deus. Assim, desprezando o Amor, a Bondade e a Disciplina de Deus, fitam seus olhos nas bençãos que desejam sempre.

O que nos resta é parar de reduzir a vida a um momento (por mais longo que seja tal momento ainda será somente a parte de um breve "sopro"), e não encaixarmos Deus nesse único momento a fim de tentarmos compreender quais as Suas razões para nossa dor.

Ora, saibamos que Deus é bom, e que tudo coopera para o bem dos que assim crêem, de modo que linhas escuras podem tecer a vida destes, que ainda assim dirão: Ele me ama. Pois o amor de Deus se prova na Cruz e na experiência de encarar a vida sob essa perspectiva, não na ausência de dor e conflitos. Tenhamos, pois, bom ânimo. Ele venceu o mundo.

Deus te ama, Ele te amou sempre e sempre, e para sempre...

Em toda a dor, que a Graça te baste.


Por Gustavo Marchetti, no Amor dEle.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

O Verdadeiro Benefício - Agostinho

O salmo referiu-se a estes mesmos favores divinos observando a mesma ordem, ao dizer: Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e não esqueças nenhum dos seus benefícios. É ele quem perdoa todas as tuas culpas, e que sara todas as tuas enfermidades. É ele quem resgata da morte a tua vida, e que te cora de misericórdia e de graça. É ele quem sacia de bens a tua vida (Sl 103,2-5). E para que a deformidade do homem velho, ou seja, de nossa mortalidade, não se desesperasse de alcançar ESTES bens, continua o salmo: Renova-se, como a da águia, a tua juventude.

sábado, 9 de julho de 2011

Todas as Coisas são Permitidas? - Geoff Ashley


Depois de citar “todas as coisas são permitidas” A Escritura diz: “mas eu não vou ser escravizado por nada” (1 Coríntios 6:12). Após o segundo uso, dessa expressão no capítulo 10, aparecem essas palavras: “Ninguém busque o seu próprio bem, mas o bem de seu próximo. “É possível, para você, fazer o que quer de tal forma que não seja escravizado? Você pode fazê-lo de tal forma que não danifique o outro? Se não, então o seu “direito” deve ser substituído por sua responsabilidade a aderir de vontade revelada de Deus.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Conhecer a Deus - Blaise Pascal


O Deus dos cristãos é um Deus que faz sentir à alma que ele é o seu único bem; que todo o seu repouso está nele; que não terá alegria senão em amá-lo; e que lhe faz ao mesmo tempo abominar os obstáculos que a retêm e a impedem de o amar com todas as suas forças. O amor-próprio e a concupiscência que a detêm lhe são insuportáveis. Esse Deus lhe faz sentir que ela tem esse fundo de amor-próprio e que só ele pode curá-la.

(Eis o que é conhecer Deus como cristão. Mas, para conhecê-lo dessa maneira, é preciso conhecer ao mesmo tempo a sua miséria, a sua indignidade, e a necessidade que se tem de um mediador para se aproximar de Deus e para se unir a ele. É preciso não separar esses conhecimentos porque, uma vez separados, são não só inúteis, mas nocivos.) O conhecimento de Deus sem o da nossa miséria faz o orgulho. O conhecimento da nossa miséria sem o de Jesus Cristo faz o desespero. Mas, o conhecimento de Jesus Cristo nos isenta não só do orgulho como do desespero, porque encontramos nele Deus, a nossa miséria e a via única de a reparar.

Podemos conhecer Deus sem conhecer as nossas misérias, ou as nossas misérias sem conhecer Deus; ou mesmo Deus e as nossas misérias, sem conhecer o meio de nos livrarmos das misérias que nos afligem. Mas, não podemos conhecer Jesus Cristo sem conhecer ao mesmo tempo Deus e as nossas misérias, assim como o remédio das nossas misérias; porque Jesus Cristo não é simplesmente Deus, mas um Deus reparador das nossas misérias.

Blaise Pascal (1623-1662)

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Oração pela Pérola

"Senhor, me apresento diante de Ti com minhas falhas. Esta é a única parte que me cabe. Toda virtude, tudo o que faço de correto, vem de Ti, da tua graça. Sem Ti eu sou como o Jordão que corre até o Mar Morto, e ali morre.
Como é difícil passar um dia em tua presença! Agora entendo o salmista, dizendo que vale mais um dia nos teus átrios do que mil em qualquer outro lugar! Estes dias são tão raros quanto os diamantes, tão raros quanto pérolas escondidas nas profundezas do oceano. Assim como estas pérolas só podem ser encontradas depois de uma busca incansável, mergulhando na imensidão escura do mar, assim também é um dia em teus átrios!
Como valorizo os primeiros dias! Dias em que a tua presença era tão real quanto tudo o que há de palpável neste mundo. Hoje caminho como um cego, tateando por todos os lados, clamando pela graça que há em tua luz. Entretanto, percebo que agora acabo extraindo virtude desta aparente desgraça. A escuridão é necessária para que a luz tenha valor. Não te pedi, nos tempos do primeiro amor, que eu pudesse valorizar a tua glória acima de todas as coisas? O Senhor ouviu a minha oração. Levou-me às profundezas da escuridão para que eu te enxergasse melhor.
Agora aqui estou, vendo que todo este mal cooperou para o meu bem, pela infinita graça e misericórdia do teu amor. Agora entendo que, assim como o Senhor fez com Jó, faz também a todos que ama. Leva-os aos abismos para lhes mostrar o valor da sua gloria. E depois de passarmos por estes abismos, podemos dizer: ‘Antes eu te conhecia só de ouvir falar, mas agora os meus olhos podem te ver’.
O Senhor impelirá a todo que foi alcançado pela tua graça a mergulhar no mar profundo. E a medida que o justo for mais fundo, tudo se tornará escuro. Mas haverá o dia em que ele encontrará uma pérola, como a que encontrei hoje. E todo o esforço do mergulho, todo o medo encontrado na escuridão, não será nada comparado a alegria que habitará o ser de quem encontra a pérola. Isto porque, como o Senhor disse, ‘o reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido num campo, que um homem achou e escondeu; e, PELA ALEGRIA dele, vai, vende tudo quanto tem, e compra aquele campo’.
Concede-me a graça de enxergar o valor do tesouro, para que eu passe cada dia da minha vida vendendo tudo o que tenho para comprar aquele campo!
Em nome do teu santo Filho eu oro, amém"

Vinícius Santos Albuquerque

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Domine os fatos ou eles te dominarão


Desimpregnar-se de si e aceitar que a vida não se curva diante de nossas vontades [pois "o coração do homem planeja o seu caminho, mas o Senhor lhe dirige os passos" - Pv. 16: 9], pode ser a mais dolorosa experiência humana. Saibamos, pois, que é o coração do homem quem escreve os caminhos de sua própria vida [e aqui não trato de teologia, simplesmente "falo como homem"]. Vida cinzenta e triste para os que maximizam sua dor por não abrir mão de suas vontades, vida colorida e radiante para os que compreendem que nada sabem do que realmente deva ser sabido [portanto entregam-se a Deus, confiando que Ele sabe], e assim compreendem os fatos que lhe ocorrem, dominando-os [cientes de que "o coração alegre é como o bom remédio, mas o espírito abatido seca até os ossos" - Pv. 17: 22].

Nesse aspecto, de onde virá a alegria do meu coração? Será de outro lugar senão da gratidão ao Deus que salva gratuitamente [Hc. 3: 18]? Dele tudo vem, e de graça vem, ora, se o que tenho me é dado não porque mereço, mas gratuitamente, não devo então, querer nada que não me seja dado. A vida se vive em gratidão, ou pelo menos deve-se viver, e não entre murmúrios ingratos. Só assim tu "não cobiçarás".

Não compreender isso produz nos crentes de hoje em dia certa revolta-manhosa-de-filho-mimado com relação a Deus. Os discursos que salientam o fato de que "Deus concederá os desejos do teu coração" - portanto, cobice ele o que quiser -, apartam, os ouvintes de tais mensagens, da sanidade que abraça a todos os que, gratos, se voltam para Deus. Desse modo, temos crentes loucos, entregues às suas paixões pathos-lógicas [que secam até os ossos], cobiçando [o que não lhes é concedido], invejando [o que não lhes pertence] e lançado-se em combates e guerras [confiando em si mesmos] para conquistar seus sonhos adúlteros [Tg. 4: 2-4].

Estes confiam sem confiar, confiam em Deus como quem faz figa, como quem O usa como auxílio supersticioso afim de que aconteça o que eles querem que aconteça em algum momento, e enquanto isso não acontece, dizem estar "descansando em Deus", mas apenas descansam em sua própria esperança adúltera, agarram-se a seus próprios planos e desprezam o Senhor como guia de seus passos. São dominados pelos fatos que a vida lhes apresenta, se enrijecem por seus desejos imutáveis e intratáveis.

Não há outra forma de fugir disso senão "sujeitando-se a Deus", pois Ele "dá graça aos humildes, mas resiste aos soberbos" que pensam saber de alguma coisa. Só então, "resistiremos ao diabo, de modo que ele fuja de nós", somente quando dermos razão a Deus, como Senhor soberano e desfrutarmos, com gratidão, tudo o que temos recebido. Se não for assim, o diabo não encontrará resistência em nossas vidas, antes, encontrará auxílio, tornar-se-á colega de trabalho de cada um de nós.

Portanto, "sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida" (Pv. 4: 23), dê razão a Deus em Seus caminhos, abra mão da vida patológica de quem deseja o que deseja, e isso o faz até que os ossos sequem, resista assim ao demônio adúltero que habita dentro de si [você mesmo], e então, e somente então, resista ao diabo, e ele certamente fugirá de ti.

Por mais um dos que querem-querer-o-que-Deus-quer-que-eles-queiram, e nada além disso.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Caminhe, viva e exista dando [a sua] razão à Ele


No caótico mundo em que vivemos apenas não sucumbimos em ódio e ingratidão amargurada se encarnarmos a Graça divina, se nos tornarmos o resultado da mesma, passando assim a olhar para a vida com gratidão ao Deus que é Bom.

O sentimento de Deus-aqui-não-está que persegue, entre idas e vindas, o coração humano, atacando a fé simples de quem simplesmente caminha dando razão a Deus, nos conduz sempre às sistematizações humanas, sejam as moralistas, as sacro-ritualísticas e até mesmo às místicas. Isso porque na pseudo-ausência de Deus, tendemos a criar outros deuses para nossa satisfação pessoal, assim, confortamo-nos com ideologias, corbãs (ofertas para Deus), e mistificações acerca do des-conhecido mundo espiritual.

Paulo afirmou que simples é encontrar o Deus que É, pois nEle nos "movemos, existimos e vivemos", de modo que nada se move, existe ou vive senão nEle, portanto não é Ele quem dista de nós, mas nós é quem não O vemos.

E porque então não O vemos?

Paradoxalmente, os atenienses não O viam porque queriam cultuar o que viam, e também o que temiam, sim, pois haviam deuses para cada coisa criada nessa terra, e não somente isso, mas por medo, até mesmo criaram um altar para o "Deus desconhecido". De fato, cultuando o que viam não viam O que deviam cultuar, e por medo do Desconhecido desconheciam O que todas as manhãs se lhes fazia conhecido.

Louvado seja tal temor, deve mesmo exisitir pois Ele haverá de nos julgar, no entanto, a menos que se compreenda que O que devia ser sacrificado em Seu altar já fora sacrificado, para que todos que aceitem tal sacrifício por si, por meio dEle, "movam-se, existam e vivam", se moverão dificultosamente, existirão por sistematizações e viverão com medo do Desconhecido.

Assim mesmo é com quem se esquece do que foi feito, o caminho fica difícil (cheio de inveja, ódio e malícia), os sistemas humanos se tornam atraentes, enclausurando-o como um peixe num aquário, e o pavor o des-conecta do Divino Pai.

A meu ver, a relação de amor e ódio que se tem com a vida, depende totalmente da relação que se tem com o Autor da Vida, se a Ele chamamos Pai, cientes de que Ele é Amor, amor então se tem para dar, o contrário disso opera em nós ódio e murmuração.

Diante disso, devemos ser restaurados diariamente pelo Sacrifício que fora posto no altar por nós, de modo que passemos assim a nos mover, existir e viver por tal Sacrifício. De fato, a menos que isso entendamos, por mais que caminhemos não iremos chegar a lugar algum; por mais que busquemos ser, não existiremos e por mais que tentemos viver, estaremos mortos.

Com isso ratifico que o caminhar no Caminho é simples, não há shows pirotécnicos, anjos visitando [visivelmente] nosso quarto, não há sarças ardendo todas as manhãs, nem arrebatamentos diários, há apenas a consciência que se entrega todos os dias ao Pai dizendo: Tu tens razão. Não como conforto filosófico, mas como certeza que impregna a alma de tal forma que esta caminhe, viva e exista dando [a sua] razão à Ele.

Ele tinha razão em fazer queimar a sarça, em fazer morrer o filho de Davi, em chamar a Abraão, em crucificar a Cristo e em não manifestar-se a ti hoje senão, apenas, através do sol que pela manhã brilha.

Tendes fé. Para tanto, basta olhar para Ele. Ore e jejue.

Por mais um dos que caminham, vivem e existem simplesmente crendo nEle.

terça-feira, 17 de maio de 2011

As Coisas Pequenas - Charles Spurgeon

C.H. Spurgeon (1834-1892) era pregador, autor e editor britânico. Foi pastor do Tabernáculo Batista Metropolitano, em Londres, desde 1861 até a data de sua morte. Fundou um seminário, um orfanato e editou uma revista mensal chamada “Sword na Trowel”. Conhecido como “Príncipe dos Pregadores”, Spurgeon escreveu muitos livros e artigos, particularmente na área devocional. Deixou um legado de vida piedosa, marcada por um profundo amor ao Senhor Jesus Cristo e por dedicados esforços ara alcançar almas perdidas.


Somos incapazes de realizar o mais humilde ato da vida cristã, se não recebemos de Deus o vigor do Espírito Santo. Com certeza, meus irmãos, é nestas COISAS PEQUENAS que geralmente percebemos, acima de tudo, a nossa fraqueza. Pedro foi capaz de andar sobre a água, mas não pôde suportar a acusação de uma criada. Jó suportou a perda de todas as coisas, porém as palavras censuradoras de seus falsos amigos (embora fossem apenas palavras) fizeram-no falar mais amargamente do que todas as outras aflições juntas. Jonas disse que tinha razão em ficar irado, até à morte, A RESPEITO DE UMA PLANTA.

Você não tem ouvido, com certa freqüência, que homens poderosos, sobreviventes de muitas batalhas, foram mortos por um acidente trivial? John Newton disse: “A graça de Deus é tão necessária para criar no crente a atitude correta diante da quebra de uma louça valiosa como diante da morte de um parente querido”. Estes pequenos vazamentos precisam dos mais cuidadosos tampões. Nas coisas pequenas, bem como nas coisas grandes, o justo tem de viver pela fé!

Crente, você não é suficiente para nada! Sem a graça de Deus, não pode fazer coisa alguma. Nossa força é fraqueza — fraqueza até para as coisas pequenas; fraqueza para as situações fáceis, bem como para as complexas; fraqueza nas gotas de tristeza, como também nos oceanos de aflição. Aprenda bem o que nosso Senhor disse aos seus discípulos: “Sem mim nada podeis fazer” (João 15.5).

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Nos braços do Pai

Enquanto a conseqüência de meus erros me consome, meu desejo por retornar para a casa de meu Pai aumenta.

Lá até os trabalhadores se alimentam melhor que eu.

Mas a dúvida me domina a mente.

Será que serei aceito? Será que Ele me receberá?

Eu até mesmo me misturaria a seus trabalhadores para desfrutar do mesmo alimento que eles.

Levanto-me com este objetivo e para tal função espero ser aceito.

Já posso ver a casa de meu Pai. Sinto um vento frio invadir meu interior. Minhas mãos suam.

Estou a ponto de desistir de minha caminhada.

Logo penso em quão pretensioso sou pelo fato de achar que Ele me aceitará, ainda que seja como um servo Seu.

Será que assim eu poderia quitar minha dívida? Apagaria minha culpa? Se eu O servir acertarei tudo?

De longe O vejo, Seu olhar compassivo revela Sua longa espera.

Tal expressão me enche de esperança.

Ele segura suas vestes com as mãos e corre em minha direção.

Ele vem, com o coração transbordando em amor, de tal maneira que meus medos e dúvidas são lançados para longe de mim.

Minha alma passa a tranqüilizar-se, mas a vergonha faz-me querer fugir.

Mais rápido que eu pudesse decidir pela fuga, encontro-me enlaçado em Seus braços amorosos.

Tento desculpar-me, mas Ele parece não ouvir minhas palavras, antes, virasse para Seus servos e lhes dá ordens.

Então digo:

“Como quitarei minha dívida? Não pode ser assim. Estou disposto a pagar o que retirei de Ti.”

Eles me servem.

Vestiram-me com roupas novas, puseram em meu dedo um anel e me calçaram os pés.

Ninguém ouve minhas desculpas.

Ninguém pode acusar-me.

Sou por todos reconhecido como Seu Filho.

O novilho cevado dá abertura à alegria que invade os corações de todos.

“Aquele que estava morto, reviveu”.

É o que dizem.

Em meu coração me regozijo por ter experimentado tão grande amor.

Amor capaz de trazer-me de volta à VIDA.

Por Gustavo Marchetti, mais um dos que se encontram enlaçados nos braços do Pai.